A liberdade vigiada de Jonathan Franzen


Destaque da próxima Flip, romancista americano vem ao Brasil com mais que literatura na cabeça

IVAN FINOTTI
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK

Jonathan Franzen, o grande romancista americano, está chateado com Madonna, a rainha do pop mundial. Ela não sabe disso, pois nunca se encontraram pessoalmente. Só o que Franzen pode fazer é ficar de longe, atrás de seus binóculos, espreitando qualquer movimento no jardim da cantora. E ele faz isso todo dia.

Essa estranha história de perseguição começou de forma inocente, há 11 anos, quando o escritor abalou a crítica norte-americana ao publicar “As Correções” (2001). O livro resgatava um tipo de romance há muito esquecido na boa literatura do país e que pode ser descrito como “twisted relationships” (algo como “relacionamentos confusos”, em tradução livre). São romances familiares em que os irmãos, pais, maridos, esposas e filhos estabelecem relações nas quais amor e ódio se confundem, o respeito e o escárnio disputam espaço, violência e desejo parecem os mesmos.

O que ele fez, enfim, foi seguir uma linhagem que comporta de Mark Twain (1835-1910) a William Faulkner (1897-1962), de Henry James (1843-1916) a John Steinbeck (1902-1968). E, então, em 2010, nove anos depois de “As Correções”, lançou “Liberdade”, com o mesmo tipo de histórias, consolidando sua ambição ao lado dos grandes.

Em seguida, em 23 de agosto de 2010, a revista mais influente do mundo, a norte-americana “Time”, rendeu-se. Após um recesso de dez anos (520 edições!) sem escritores na capa, a publicação estampou o caipira de Illinois, crescido em Saint Louis, dentro da clássica moldura vermelha. Não só isso, o título de capa era “Great American Novelist” (grande romancista americano).

É o tipo de frase que, publicada nacionalmente, muda a vida de qualquer um.

“É um meio invejoso esse. Há muito ressentimento…”, diz Franzen, 52, à Serafina, sem conseguir disfarçar que, na verdade, sente-se bastante à vontade com esse seu novo aposto.

Sentado na mesa de jantar de seu apartamento, em Nova York, em que vive com a namorada também romancista, Kathryn Chetkovich, e onde todos devem entrar de meias, ele cita seus modelos para chegar no cume: O grande favorito é o escritor austro-húngaro Franz Kafka (1883-1924), autor de “A Metamorfose” (1915).

São só os clássicos: “Goethe, Stendhal, Proust, Balzac, Thomas Mann”.

“E Nietzsche, Freud, Karl Kraus. Entre os autores de língua inglesa, não posso esquecer de Conrad, Faulkner, Scott Fitzgerald e Nabokov”, completa.

Estamos no ar rarefeito das mentes musculosas, para dizer o mínimo.

TIJOLOS

“Liberdade”, um livrão de 600 páginas ‑assim como “As Correções”‑, acompanha por décadas um triângulo amoroso entre um nerd, sua mulher e um músico, que se conheceram na universidade, no fim dos anos 1970. A história é quase toda escrita por ela, já mãe, em forma de autobiografia. Todos são devidamente loucos e normais por natureza, com seus problemas, encanações, arrependimentos, sonhos e alguma esperança.

Já “As Correções” versa sobre um casal do interior e seus três filhos da cidade no momento em que o pai começa a sentir os primeiros efeitos do mal de Parkinson, uma experiência dolorosa vivida pelo próprio Jonathan Franzen com seu pai.

DE OLHOS BEM ABERTOS

“Meu trabalho é encontrar uma forma de transformar minha vida em histórias. Mas muito pouco do que acontece comigo está nos livros, talvez umas 20 ou 40 páginas em cada. Mesmo assim, são minhas histórias, em pontos diferentes da minha vida”, afirma o autor.

“Meus pais estão em ‘As Correções’. Eles morreram em 1995 e 1999, o que me liberou para escrever. Meu pai teve Parkinson e eu não tive que pesquisar, bastou viver com ele”, diz.

É nesse ponto que o romancista estabelece a ligação entre sua vida e sua literatura, ligada à clássica biblioteca norte-americana e mundial. “Ver a mente de meu pai se destroçando me deixou muito ciente de mim mesmo.”

“Tirei de Kafka o desejo de rasgar a superfície da vida e chegar em sua essência. E isso não se faz simplesmente com formatos, mas com personagens e histórias.”

Jonathan Franzen tem dois vícios claros. O primeiro é o hobby que descobriu há alguns anos: a observação de aves. “Estava caminhando no Central Park com minha irmã e o marido dela, e eu, que andava por ali havia dez anos, já tinha visto uns três tipos de pássaro. E, naquele dia, meu cunhado ornitólogo me mostrou umas 50 espécies diferentes.”

“Eu achava que conhecia o mundo. E eis que surge uma nova dimensão da qual eu não tinha ideia. Foi uma revelação, foi como um adolescente que, de repente, descobre o sexo.”

Logo se tornou uma paixão. Em sua passagem pela Flip, em julho, o norte-americano pretende esticar por “uma semana ou nove dias no Pantanal e no sul da Bahia, observando pássaros”.

O outro vício são os seriados de TV. Ele anuncia, durante a entrevista, que está escrevendo uma minissérie com 40 horas, o que equivale a mais ou menos o tempo de 20 longas-metragens. Trata-se de uma adaptação de “As Correções” para a TV, na verdade, uma grande expansão do livro, já que ele calcula que o original seria suficiente apenas para metade desse tempo. “Estou criando cenas para Gary Lambert (um dos filhos da cidade) aos 20 anos, e, no livro, ele já está na meia-idade”, diz.

O seriado, da HBO, está programado para 2014, mas o piloto já está na sala de edição. O diretor é Noah Baumbach, 42, autor de um clássico moderno de “twisted relationships”, o longa “A Lula e a Baleia”, de 2005. E o grande romancista americano já ensaia uma série de explicações sobre a adequação de sua obra para outro suporte.

“Os seriados viraram primos dos romances. Grandes histórias sociais, como eram feitas no século 19, só existem agora na TV”, afirma. “Em Balzac, personagens de um livro aparecem em outro, você acompanha uma história sendo contada por vários anos ou décadas, há descrições de 20 ou 30 páginas sobre uma mina, sobre um açougue”, lembra.

“A fotografia matou as descrições detalhadas, depois a TV ajudou a matar o romance social. Mas, de repente, ei-los de novo em formato de seriados.”

O pensamento continua: “Eu poderia aprender muita coisa sobre metanfetamina na Wikipedia ou em outros sites. Mas é muito mais prazeroso assistir a ‘Breaking Bad'”, diz ele, referindo-se a um seriado em que um professor de química começa a produzir a droga para pagar um tratamento de câncer (exibido no Brasil pela AXN). “Já vai começar a quinta temporada”, empolga-se.

Além de “Breaking Bad”, é adepto do seriado “Law and Order”, ao qual assistia pela TV a cabo. “Agora, comecei tudo de novo, depois que um amigo me deu as 20 temporadas em DVD.”

Mas ele é seletivo. “Larguei ‘Mad Men’ no sexto episódio porque não estava aprendendo nada. E o único episódio a que assisti de ‘CSI’ foi o pior da minha vida!”

INIMIGO PÚBLICO

Apesar de sua história de amor com a TV, foi nesse meio que viveu o maior quiproquó de sua história. E sua nêmesis era ninguém menos que Oprah Winfrey. Todo-poderosa rainha da televisão americana, ela criou, em 1996, o Clube do Livro da Oprah, em que recomendava um livro por mês, entre lançamentos e clássicos.

Dado o poder de formar opiniões da apresentadora, as editoras americanas logo calcularam que, a cada recomendação da mulher, 400 mil livros eram imediatamente vendidos. E a obra escolhida por ela, em setembro de 2001, foi “As Correções”. “O episódio que perturbou milhões”, nas palavras do escritor, foi que, após concordar em ser indicado, voltou atrás e recusou o selo.

Só que isso aconteceu no mês do 11/9, da queda das Torres Gêmeas, e o país estava assustado, fragilizado. E muita gente se sentiu desrespeitada quando um então desconhecido desprezou um símbolo patriótico tão querido como Oprah.

“Virei o inimigo público número dois dos EUA, atrás de Bin Laden”, conta ele. “Houve muita confusão, me xingaram por escrito. Fui xingado na rua. Sou xingado até hoje. Não acho justo”, desafabou. “O que queria fazer era atrair os leitores homens para os meus livros. Uma pesquisa indicava que, quando o livro trazia o selo do Clube do Livro da Oprah na capa, era rechaçado pelos maridos, só as mulheres o liam.”

Seja como for, nove anos depois da primeira indicação, lá estava “Liberdade” com o selo de Oprah novamente. Com a ajuda dela, cada um dos livros vendeu cerca de 1 milhão nos Estados Unidos e 3 milhões no resto do mundo.

Com o dinheiro que ganhou com “As Correções”, comprou o apartamento em que mora até hoje, no chiquérrimo Upper East Side, na rua 82, entre o Central Park e o rio Hudson.

E foi olhando por uma janela que o escritor descobriu, lá embaixo, um jardim vizinho, um tanto mal cuidado e cheio de folhas secas.

E começou a observar, de binóculos, vários passarinhos. Logo, havia registrado a presença de cerca de 40 espécies. “Isso numa zona urbana como essa!”, ele quase grita, mal se contendo de tanto prazer ornitológico.

Mas aí, Madonna comprou o prédio do lado. “E mandou construir um novo andar, limpou o jardim, podaram as árvores.”

E os pássaros voaram para longe. E só o que Jonathan Franzen pode fazer é ficar atrás de seus binóculos, espreitando qualquer movimento no jardim da cantora. E ele faz isso todo dia.

Casa Folha terá série de debates e exposições na Flip


Pelo 2º ano, espaço em Paraty vai abrigar palestras de escritores e colunistas do jornal

Drummond é tema de uma das conversas; Javier Cercas e Teju Cole integram a lista de convidados do evento

DE SÃO PAULO

Folha vai promover durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 4 a 8 de julho, uma série de debates, sessões de lançamentos de livros e exposições.

Os eventos acontecem na Casa Folha, localizada na rua da Matriz, no centro histórico de Paraty.

É a segunda vez que o jornal terá um espaço com programação diária na festa literária. A Folha é parceira oficial de mídia da Flip.

Também haverá distribuição de edições do jornal em diversos pontos da cidade, como ocorre desde 2010.

A programação da Casa Folha é gratuita e inclui conversas com colunistas e cartunistas do jornal, além de convidados.

Na primeira mesa, às 11h do dia 5/7, os colunistas da FolhaMarcelo Coelho e Fabrício Corsaletti vão comentar a produção em prosa do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), homenageado da Flip neste ano.

“Quero comparar a poesia com as crônicas. Em ambos os casos ele tem um olhar atento para o outro, para o lado social, mas o tratamento é muito diferente”, diz Corsaletti, que também é poeta.

A Casa Folha também vai promover palestras com dois convidados internacionais da décima edição da Flip.

O espanhol Javier Cercas, autor de “Soldados de Salamina” (2001), irá comentar os caminhos da literatura em sua língua (leia entrevista com o autor na pág. E7).

O outro palestrante é o americano-nigeriano Teju Cole. Ele lança no Brasil o livro “Cidade Aberta” (2011), que narra a perambulação de um médico por Nova York no pós-11 de Setembro.

A programação inclui ainda exposições de fotos e capas daFolha, além de saraus.

Quanto à programação oficial da Flip, até o fechamento desta edição ainda havia ingressos para seis mesas na Tenda dos Autores. Confira a lista completa na páginawww.ticketsforfun.com.br.

As brasileiras crescem


As três editoras brasileiras listadas no Ranking Global do Mercado Editorial, feito desde 2006 pela consultoria Rüdiger Wischenbart, estão entre as 15 que mais cresceram no mundo de 2010 para 2011. O estudo considera grupos que faturam mais de 150 milhões de euros.
A brasileira mais bem colocada, a Abril Educação, pulou da 46a posição para a 40a, com faturamento de 319 milhões de euros. O crescimento foi de 37,64%, o terceiro maior no ranking geral. A Saraiva subiu duas posições, chegando ao 50o lugar. Cresceu 10,34%, com 207 milhões de euros. A FTD subiu quatro e ficou no 52o, com 175 milhões de euros, num crescimento 8,42%.
É o segundo ano com as brasileiras no estudo, que agora engloba 54 editoras. O site PublishNews, parceiro da iniciativa, publica o ranking geral depois de amanhã.

UMA LIVRARIA “QUIXOTESCA”

Fundada nos anos 90 como livraria, que existiu até 2003 no bairro carioca Jardim Botânico, a editora 7Letras voltará a ter loja própria.
Será uma “livraria de tamanho poético”, diz o editor Jorge Viveiros de Castro, com 20 m2 no terceiro andar de galeria na rua Visconde de Pirajá. Vizinha à Livraria Travessa de Ipanema, mas não concorrente: assim como a editora, a loja 7Letras será voltada à literatura brasileira, à poesia e a títulos acadêmicos.
Entre as casas que têm afinidade com esse “projeto quixotesco”, Castro cita a Não Editora, a Edith e a Móbile. A meta é fazer a inauguração em setembro, quando sai a revista “Lado7” no 4.
Também até lá, a 7Letras pretende oferecer todo o seu catálogo no formato digital.

POP

A ‘Serrote’ no 11 sai no próximo sábado com ensaio sobre Michael Jackson assinado pelo editor da ‘Paris Review’ John Jeremiah Sullivan e ilustrado com retratos de sósias, parte de série de Valérie Belin

A MULTIPLICAÇÃO DO ‘HOBBIT’

Título mais vendido da WMF Martins Fontes (140 mil cópias em 17 anos), “O Hobbit”, de J.R.R. Tolkien, sairá em vários formatos por conta do primeiro filme de Peter Jackson baseado no livro, que estreia em 14 de dezembro.
Em novembro, a WMF publica guia ilustrado e edição especial com a capa do primeiro filme, “Uma Jornada Inesperada” (o segundo filme, “Lá e De Volta Outra Vez”, estreia no final de 2013).
Para 2013 está prevista edição de luxo com 10 mil cópias -mesma tiragem da edição de luxo de “O Senhor dos Aneis”, que, lançada pela editora “irmã” da WMF, a Martins, esgotou-se em um mês.
No próximo dia 1º/7, “O Hobbit” ganha edição digital.

Restrições 1 Os recém-publicados editais das Bolsas BN/Funarte de Criação e Circulação Literária receberam críticas quanto ao que foi entendido como censura às abordagens ficcionais dos projetos. O texto informa que serão eliminados projetos que “caracterizem” temas como pedofilia, discriminação ou tráfico de drogas.

Restrições 2 A Biblioteca Nacional informa que a intenção era esclarecer que serão inabilitadas obras que façam apologia à pedofilia, à discriminação, ao tráfico e aos outros itens listados, e não que só abordem esses temas. Diferenciar abordagem de apologia serão outros 500.

Barulho Após denunciar o tráfico sexual e o abuso de menores em seu país no livro “Os Demônios do Éden”, a mexicana Lydia Cacho sofreu pressões de políticos e empresários. A tentativa de silenciamento ela descreve no mais recente “Memórias de uma Infâmia”, que sai em julho pela Bertrand Brasil, com orelha de Roberto Saviano.

Diplomacia Dany Laferrière não gostou de saber que dividirá mesa com Zoé Valdés na Flip. O haitiano e a cubana têm posições diferentes e já se desentenderam em outras ocasiões. Em post de 2005 em seu blog, ela ainda o elogiava, descrevendo sua fala como “brilhante, divertida”. Em 2009, já o criticava num debate sobre pedofilia. Foi preciso jogo de cintura da Flip para manter a mesa.

Futebol Editora de “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho (1908-1966), a Mauad publicará outro clássico do autor, “Histórias do Flamengo”, de 1945, editado pela última vez nos anos 60. A nova edição, prevista para 2013, reproduzirá orelha assinada por Antônio Maria.

LEIA MAIS EM http://www.folha.com/abibliotecaderaquel

“Todos Morrem”


Fim de ‘House’ agrada a quem ama ou odeia o protagonista

IURI DE CASTRO TÔRRES
DE SÃO PAULO

“Todos Morrem.” É este o nome do episódio derradeiro da série “House”, uma brincadeira com o primeiro, “Todos Mentem”.

O final de um seriado nunca vai agradar a todos os fãs, então os roteiristas precisam se desdobrar para criar algo novo, que feche a história com dignidade.

Se não quiser saber o que acontece, pare de ler aqui.

Como não poderiam dar um fim feliz a um personagem miserável, decidiram brincar com a morte de Gregory House (Hugh Laurie).

Ele “morre” em um incêndio após usar heroína, mas seu óbito é apenas mais uma de suas pegadinhas, afinal, o médico continua vivo e foge de moto com Wilson (Robert Sean Leonard).

É uma solução que deve ter agradado a quem ama ou odeia o personagem. Afinal, House sempre foi a encarnação do anti-herói, aquele que todos amam odiar.

Ou odeiam amar?

A participação especial de ex-membros de sua equipe traz charme ao capítulo, mas ficou faltando o amor da vida de House, Lisa Cuddy (Lisa Edelstein).

“House” foi uma série longa demais para os novos padrões de TV -177 episódios em oito temporadas-e que poderia ter terminado há uns três anos.

O último episódio, ao menos, foi um grande resumo da série e uma ode ao personagem carismático do ator Hugh Laurie.

NA TV
House
Último episódio da série
QUANDO hoje, às 22h, no Universal
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO bom

Folclore da Bahia irrompe na tela em “Quincas Berro d’Água”


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Jorge Amado é, ainda, um valor seguro. Se seu nome não garante o sucesso, ao menos permite montar o negócio, como em “Quincas Berro d’Água” (TC Pipoca, 18h20, 14 anos), a bela história dos amigos que recolhem o finado Quincas, mas simplesmente se recusam a admitir que está morto.

Com o corpo em punho, saem pelo Pelourinho afora. Como o morto é Paulo José, digamos que ele não raro parece mais vivo do que os outros.

Não é um morto-morto, digamos assim: a cada vez que olhamos, o rosto adquire uma outra expressão. Tudo é ambiguidade nessa figura.

Isso à parte, o filme não chega a retomar em imagens o humor elegante da escrita de Amado. O que mais irrompe na tela é mesmo o folclore da Bahia.

Livro feito na internet vira um fenômeno “Fifty Shades”


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vai chegar ao Brasil um tsunami: a trilogia de livros “Cinquenta Tons de Cinza” (“Fifty Shades”, no original) que ocupa há 14 semanas o topo da lista de mais vendidos do New York Times.

Livros assim são chamados de “mommy porn”, por seu apelo erótico, que faz a alegria de donas de casa.

A história fica mais interessante. A trilogia foi escrita na internet. Sua autora, Erika Leonard (que agora assina E.L. James) era, ela mesma, uma dona de casa entediada.

Como solução vespertina, entrava em sites amadores para escrever “fanfiction” (gênero em que se imagina tramas alternativas para personagens já famosos).

No caso de Erika, os personagens eram os vampiros Bella e Edward, da série Crepúsculo. Como Crepúsculo tem pouco sexo, Erika apimentou a relação dos vampiros e imaginou situações em que eles se envolvem com sadomasoquismo e outras traquinagens do tipo.

Os textos começaram a fazer sucesso. Erika percebeu que tinha algo importante nas mãos. Mudou o nome dos personagens (para Christian e Anastasia), mas manteve o enredo escrito na rede. Nascia o livro “Fifty Shades”.

Ao todo, já são 13 milhões de cópias vendidas (a editora brasileira pagou 780 mil dólares pelo direito de lançá-los aqui). O caso é um petardo para se pensar como a criatividade muda por causa da rede. O fenômeno sacode ideias como “originalidade” e “plágio”, além da imaginação das donas de casa.

Quem será a próxima a continuar a história?

READER

JÁ ERA Livros só em papel

JÁ É Leitores digitais que simulam a “tinta” dos livros

JÁ VEM Leitores digitais flexíveis, que imitam a flexibilidade do papel

Lugares imaginários


O poder dos cenários na literatura policial

P.D. JAMES

tradução JOSÉ RUBENS SIQUEIRA

RESUMO A série de textos que a “Ilustríssima” apresenta em primeira mão traz trecho do livro “Segredos do Romance Policial” (184 págs., R$ 29,90), de P.D. James. O ensaio da premiada ficcionista inglesa sobre o gênero literário que a consagrou será publicado pela editora Três Estrelas nesta semana.

Ler qualquer obra de ficção é um ato simbiótico. Nós, leitores, contribuímos com nossa imaginação para a imaginação do escritor ao entrarmos voluntariamente no seu mundo, participando da vida das pessoas que ali habitam e formando, a partir das palavras e imagens do autor, nosso próprio quadro mental de pessoas e lugares.

O cenário em qualquer romance é, portanto, um elemento importante de todo o livro. O lugar, afinal de contas, é onde os personagens representam suas tragicomédias, e só se a ação estiver firmemente enraizada na realidade física é que podemos entrar plenamente no mundo deles.

Não se trata de sugerir que o cenário seja mais importante que a caracterização dos personagens, a narrativa e a estrutura; essas quatro coisas precisam ser mantidas em tensão criativa, e a história toda deve ser escrita em linguagem atraente caso se deseje que o livro sobreviva ao primeiro mês da publicação.

Se questionados, muitos leitores optariam pela caracterização como o elemento fundamental da ficção, e, de fato, se os personagens não conseguem convencer, o romance não é mais que uma narrativa sem vida, insatisfatória.

Mas o cenário é onde essas pessoas vivem, se movem e têm sua existência, e precisamos respirar o ar que elas respiram, ver com seus olhos, caminhar pelos caminhos que elas trilham e habitar as salas que o escritor mobiliou para elas.

Tão importante é essa identificação que muitos romances têm como título o lugar onde se concentra a ação; exemplos óbvios são “Wuthering Heights” [“O Morro dos Ventos Uivantes”], “Mansfield Park”, “Howards End” e “Middlemarch”, nos quais o cenário exerce uma influência unificadora e dominante tanto nos personagens como na trama.

Procurei tornar isso verdadeiro para o Tâmisa em meu romance “Pecado Original” (1996), no qual o rio liga tanto os elementos mais dramáticos da história como a atmosfera entre as pessoas que vivem e trabalham perto dele. Para um personagem, ele é uma fonte de contínuo fascínio e prazer; seu apartamento ao lado do rio, um símbolo de ambição conquistada; enquanto para outro a corrente escura e permanente é um apavorante lembrete da solidão e da morte.

CÂNONE Alguns romancistas no cânone da ficção inglesa criaram lugares imaginários com tamanhos detalhes e com tanto esmero que eles se tornaram reais tanto para o autor como para o leitor.

A respeito de “Framley Parsonage”, acrescentado por ele aos condados ingleses, Anthony Trollope disse que conhecia suas estradas e ferrovias, suas cidades e paróquias, qual caça corria por lá, e disse ainda que “não há nome dado a um local fictício que não represente para mim um lugar do qual conheço todos os detalhes, como se tivesse vivido e passeado por lá”.

De maneira semelhante, Thomas Hardy criou Wessex, de que se pode traçar um mapa, um condado de sonho que “gradativamente solidificou-se numa região utilitária para onde as pessoas podem ir, alugar uma casa e escrever para os jornais”. Autores de romances policiais raramente têm espaço para descrever um cenário com tantos detalhes, mas, embora isso possa ser feito com mais economia, o lugar deve ser tão real para o leitor como Barchester e Wessex.

Acho importante também que o cenário, sendo parte integrante de todo o romance, deva ser percebido através da mente de um dos personagens, não meramente descrito pela voz autoral, de forma que lugar e personagem interajam e que aquilo que o olho absorve influencie o clima e a ação.

Uma função do cenário é acrescentar credibilidade à história e isso é especialmente importante na literatura de crime, que com frequência trata de acontecimentos bizarros, dramáticos e horríveis que precisam estar enraizados num lugar muito tangível, no qual o leitor possa entrar como se entrasse numa sala familiar.

CLIMA Se acreditamos no lugar, acreditamos nos personagens. Além disso, o cenário pode estabelecer desde o primeiro capítulo o clima do romance, seja ele de suspense, terror, apreensão, ameaça ou mistério. Basta pensar em “O Cão dos Baskerville”, de Conan Doyle, naquela escura e sinistra mansão situada no meio da charneca envolta em neblina, para apreciar o quanto o cenário pode ser importante no estabelecimento da atmosfera. O cão de Wimbledon Common dificilmente produziria tamanho frisson de horror.

Mas o cenário de uma história de detetive pode enfatizar o terror por contraste, enquanto, paradoxalmente, fornece um alívio para o horror. O poeta W. H. Auden, que era viciado na leitura desse tipo de narrativa, examinou o gênero à luz da teologia cristã em seu conhecido ensaio “The Guilty Vicarage”.

Ele diz: “Na história de detetive, assim como em sua imagem espelhada, a busca do Graal, mapas (o ritual do espaço) e horários (o ritual do tempo) são desejáveis. A natureza deve refletir seus habitantes humanos, isto é, deve ser o Grande Lugar Bom; porque, quanto mais semelhante ao Éden ele for, maior a contradição do assassinato [], o cadáver tem de chocar não só porque é um cadáver, mas também porque, mesmo para um cadáver, está chocantemente fora de lugar, como a bagunça que um cachorro faz no tapete de uma sala.”

Ele acreditava, como acho ser o caso com a maioria dos autores de histórias de detetive britânicos, que um único corpo no chão da sala pode ser mais horrível do que uma dúzia de corpos crivados de balas nas ruas perigosas de Raymond Chandler, precisamente porque está de fato chocantemente fora de lugar.

Em diversos romances meus, usei o cenário dessa forma para enfatizar o perigo e o terror por contraste. Em “Um Gosto por Morte”, os dois corpos, ambos com a cabeça quase decepada, são descobertos na sacristia de uma igreja por uma meiga solteirona e o jovem vagabundo de quem ela ficou amiga.

O contraste entre a santidade do lugar e a brutalidade dos assassinatos intensifica o horror e pode produzir no leitor uma inquietação desorientadora, uma sensação de que a ordem estabelecida foi posta abaixo e que não pisamos mais em terra firme.

INFERNO Em “Trabalho Impróprio para uma Mulher”, meu primeiro livro com a jovem detetive Cordelia Gray, um assassinato particularmente horrendo e brutal ocorre no auge do verão em Cambridge, onde vastos jardins, rochas envoltas em sol e o rio cintilante fazem Cordelia se lembrar das palavras de John Bunyan: “Então vi que havia um caminho para o Inferno, mesmo saindo do portão do Paraíso”.

São geralmente esses caminhos para o Inferno, não o destino, que fornecem ao romancista de crime os trajetos mais fascinantes a explorar.

Romancistas policiais sempre gostaram de ambientar suas histórias numa sociedade fechada e isso tem diversas vantagens óbvias. Não se pode permitir que a mancha da suspeita se espalhe longe demais se cada suspeito tem de ser uma criatura inteira, crível, que respira, não um boneco recortado de papelão a ser ritualmente derrubado no último capítulo.

E numa comunidade fechada -hospital, escola, escritório, editora, usina atômica-, onde os personagens sempre passam mais tempo com colegas de trabalho do que com a família, sobretudo se o cenário servir também como residência, a irritação que pode emergir dessa intimidade enclausurada e involuntária é capaz de gerar animosidade, ciúme e ressentimento, emoções que, se forem suficientemente fortes, podem ferver e acabar explodindo na destrutiva fatalidade da violência.

A comunidade isolada pode também ser o epítome de um mundo externo mais amplo, e isso, para um escritor, pode ser uma das maiores atrações de uma ambientação ficcional circunscrita, principalmente quando os personagens estão sendo explorados sob o trauma de uma investigação oficial de assassinato, processo que pode destruir a privacidade de vivos e mortos.

ALDEIA O cenário de aldeia sempre foi popular -comumente, é claro, em Agatha Christie-, uma vez que a cidadezinha inglesa é em si uma sociedade fechada que, vivamos numa aldeia ou não, detém um poderoso domínio sobre nossa imaginação, uma imagem composta de nostalgia por uma vida um dia experimentada ou imaginada e um vago desejo de escapar da metrópole para uma vida mais simples, menos frenética, mais pacífica.

É interessante como quão vividamente nós, leitores, recriamos para nós mesmos o cenário rural, em geral com o auxílio poderoso de imagens da televisão e do cinema. Não creio que Agatha Christie tenha em lugar algum descrito detalhadamente St. Mary Mead, mas conhecemos a rua da cidadezinha, a igreja, o chalé, genuinamente velho mas sem marcas do tempo, com seu belo jardim na frente, aldrava brilhante e, lá dentro, miss Marple, com sua mistura de suave autoridade e bondade, explicando à sua empregada mais recente que o modo como ela espana os móveis deixa a desejar.

[…] Num sentido mais limitado, o cenário, em especial a arquitetura e as casas, é importante para a caracterização, uma vez que as pessoas reagem a seu ambiente e são influenciadas por ele. Quando um autor descreve uma sala na casa da vítima, talvez a sala em que o corpo foi encontrado, a descrição pode revelar ao leitor perceptivo muito do caráter e dos interesses do morto.

Móveis, livros, quadros, artigos pessoais em armários e estantes, todo o triste resíduo da vida terminada conta sua história. Por essa razão o local onde o corpo é encontrado é particularmente revelador e considero a descrição do encontro do corpo como um dos capítulos mais importantes de um romance policial.

Encontrar um corpo assassinado é uma experiência horrível, às vezes transformadora, para a maioria das pessoas normais, e o texto deve ser vívido e realista o suficiente para permitir que o leitor participe do choque e do horror, da repulsa e da pena. As emoções desse momento e a linguagem usada para comunicá-las devem, em minha opinião, refletir a pessoa que faz a descoberta.

O cenário é onde essas pessoas vivem, se movem e têm sua existência, e precisamos respirar o ar que elas respiram, ver com seus olhos, habitar as salas que o escritor mobiliou para elas

Auden acreditava que um corpo no chão da sala pode ser mais horrível do que uma dúzia de corpos crivados de balas nas ruas de Chandler, precisamente por estar fora de lugar

Quando um autor descreve uma sala na casa da vítima, talvez a sala em que o corpo foi encontrado, a descrição pode revelar ao leitor muito do caráter e dos interesses do morto

Alemão escreve romance com apenas um ponto final


Texto com também só um ponto comenta “Retrato da Mãe Quando Jovem”

Livro parte da biografia do autor, Friedrich Christian Delius, que levou em 2011 principal prêmio de seu idioma

MARCIO AQUILES
DE SÃO PAULO

A editora Tordesilhas está lançando no Brasil o mais novo experimento ficcional do escritor alemão Friedrich Christian Delius, o romance “Retrato da Mãe Quando Jovem”, uma obra que explora todas as potencialidades das orações subordinadas e relativas, ao construir uma prosa de fôlego, que procura prender o leitor ao longo de um parágrafo único, com apenas um ponto final -como este texto-, no fim da obra, pois, segundo o autor, “enquanto escrevia, percebera que estava muito difícil colocar um ponto final, por causa do ritmo do texto, da respiração, do pensamento, que estavam estreitamente conectados na narrativa, de modo que não cabia um ponto final”, diz o vencedor, no ano passado, do Georg Büchner Preis, principal prêmio literário em língua alemã, “motivo de alegria até hoje, já que é o maior reconhecimento que um autor em países deste idioma pode receber”, e permanente candidato ao Nobel de Literatura, que reconhece que a ousadia estética cometida nesta prosa seria praticamente inconcebível em outras línguas, e até mesmo em alemão, uma vez que precisou “direcionar toda a sua concentração, fazer todo o possível para ser conciso, claro e rítmico”, para compor esta espécie de epopeia do pensamento, que narra o percurso de sua mãe pela capital italiana, grávida de seu primeiro filho, motivo que explica o porquê “de eu ter nascido em Roma”, afirma Delius, que compôs este retrato poético de sua mãe -que caminhava, elucubrando sobre a vida, para um concerto de Johann Sebastian Bach (1685-1750), indiferente à Segunda Guerra Mundial, que levara seu marido a um combate na África- com ajuda de “cartas, fotos de família e de livros de época”, ferramentas essenciais para a empreitada que “pensava em fazer desde [a obra] ‘Der Sonntag, an dem Ich Weltmeister Wurde’ (o domingo em que me tornei campeão do mundo)”, mas que foi se concretizando quando foi a Roma em 2001 para realizar pesquisas para o romance, escrito em 2005, e já vertido para o inglês, holandês, sueco, turco, italiano e espanhol em “boas traduções”, segundo Delius, que teve a obra rapidamente celebrada por crítica e público alemão, responsáveis por surpreendentes três reimpressões nos primeiros meses subsequentes ao lançamento do livro, que, deve-se ressaltar, aparenta, de início, utilizar-se da ausência -ou quase- de pontuação como mero subterfúgio formal, preciosismo desnecessário, mas que, ao alcançar o tão aguardado ponto final, deixa o leitor em vias de desespero, querendo mais linhas do arrojado relato.

Livro inédito flagra maturação de Drummond


“Os 25 Poemas da Triste Alegria”, reunião de textos do início dos anos 1920, apresenta a trajetória de formação do poeta

HEITOR FERRAZ MELLO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Não há dúvida de que o primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) se chama “Alguma Poesia” e foi publicado em 1930. Está em qualquer manual escolar.

Surgia ali um poeta já inteiramente afinado com o espírito modernista, mas com uma personalidade poética muito própria, diferente de seus contemporâneos, como Mário (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954), ou Manuel Bandeira (1886-1968) e tantos outros.

No entanto, essa conversão ao modernismo não se deu sem um “impulso especulativo”, para usar uma expressão do crítico John Gledson no seu famoso estudo “Poesia e Poética em Carlos Drummond de Andrade”, de 1981.

O jovem Drummond revolveu com determinação cada um dos principais assuntos que movimentavam a vanguarda brasileira, como o tema do nacionalismo, da busca pela cor local, da linguagem coloquial, da nossa sempre intrincada relação com as influências externas (no caso, europeia) etc.

ADESÃO MODERNISTA

A prova dessa buscada maturação é a edição agora de “Os 25 Poemas da Triste Alegria”, que reúne poemas anteriores a “Alguma Poesia” e artigos escritos entre 1923 e 1924, em revistas e jornais.

Nesses poemas, encontra-se um poeta ainda muito ligado ao floreado “penumbrismo”, corrente estética da belle époque, capitaneada pelo gaúcho Álvaro Moreyra. Era uma poesia marcada por uma melancolia e uma ironia pouco autênticas.

Apesar do uso do verso livre, havia muita ternura, humildade, jardins, quintais, estrelas e flores indiferentes, sombras inúteis e tantas outras imagens um tanto postiças e abstratas -muito diferente da poesia concreta que ele viria a realizar, pouco tempo depois, em “Alguma Poesia”, na qual a melancolia e a ironia deixariam de ser um estilo para se tornar tema, com corrosivo humor.

Por este material, percebe-se que não foi uma trajetória fácil: houve uma complexa reflexão na trajetória de adoção da estética divulgada pelos paulistas da Semana de Arte Moderna de 1922.

O grande ponto de virada para o jovem poeta mineiro foi a passagem, em 1924, da animada “caravana modernista” pela provinciana Belo Horizonte, principalmente pela possibilidade de estreitar amizade com Mário, com quem Drummond começou a se corresponder.

LONGA HISTÓRIA

Mas vale recompor a história do datiloscrito de “Os 25 Poemas da Triste Alegria”, como conta Antônio Carlos Secchin no prefácio da edição atual.

Uma cópia datilografada e organizada como um livro foi dada de presente pelo poeta, em 1937, ao amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade, que depois a emprestou a Manuel Bandeira, que, por sua vez, a devolveu a Drummond.

A cópia desapareceu na quadrilha, surgindo muitos anos depois no acervo de um bibliófilo carioca.

Essa coletânea de versos contém algumas camadas: a dos poemas, escritos no começo dos anos 1920; depois, os comentários de Drummond, feitos em 1937.

Neles, o poeta também incluiu algumas observações de Mário de Andrade, enviadas por carta, em 1924.

São três leituras: a dos poemas em si, a do autor de “Pauliceia Desvairada” e a de um Drummond que, em 1937, já estava escrevendo os poemas decisivos de “Sentimento do Mundo” e que reconhecia que aqueles poemas eram “exercícios à moda do tempo, tímidos e mecânicos”.

O livro ainda traz cinco artigos de Drummond essenciais para entender a sua transformação, em tão curto espaço de tempo.

Além disso, há também uma entrevista com o poeta Emílio Moura, de 1952, lembrando da vida literária de Belo Horizonte nos anos 1920.

Essa pequena reunião de textos, como “Sobre a Arte Moderna”, “As Condições Atuais da Poesia no Brasil’ e “Poesia Brasileira”, por exemplo, permitem perceber, de perto, as especulações (e admirações) do poeta mineiro nessa época, avaliando a produção do período -com seus parnasianos, penumbristas e modernistas.

HEITOR FERRAZ MELLO é poeta, autor de “Um a Menos” (7 Letras)
OS 25 POEMAS DA TRISTE ALEGRIA
AUTOR Carlos Drummond de Andrade
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 79,90 (144 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

Para acadêmicos, livro acerta na ideia, mas exagera no tom


Professores consideram precipitada a contraposição feita entre conhecimento teórico e pesquisa empírica

Mencionado por Luís de Gusmão, historiador britânico Peter Burke declara que críticas a ele são “exageradas”

DE SÃO PAULO

No posfácio de “O Fetichismo do Conceito”, Marcelo Coelho escreve que não é difícil prever as resistências que a obra pode provocar.

Segundo Luís de Gusmão, elas começaram antes de o livro vir à luz. Nos congressos em que apresenta o estudo, conta o autor, “o pessoal fica um pouco atônito”. “Acham difícil de engolir, mas em geral não têm argumentos. Às vezes, o sociólogo não está acostumado a refletir”, diz ele, sociólogo que migrou para a filosofia da ciência.

Vários professores consultados pela reportagem se negaram a comentar publicamente “O Fetichismo…”, em geral sob a alegação de que ainda não leram o livro.

Mas, sob reserva, criticaram o argumento do colega. Um acadêmico de renome nacional disse que os trechos que percorreu lhe deram “urticária pelo simplismo”.

Entre os que se dispuseram a debater a tese de Gusmão -mesmo sob ressalva de que não leram o livro inteiro-, houve contestações mais ao tom do que à ideia do autor.

Citado na obra como uma das vítimas do “fetichismo do conceito” em seu “A Fabricação do Rei” [sobre Luís 14], o historiador britânico Peter Burke, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, considera as críticas aos sociólogos “algo exageradas, para dizer o mínimo”.

Burke declarou concordar com Gusmão que os cientistas sociais devem buscar a linguagem comum e evitar jargões o tanto quanto possível. “Diferimos, porém, sobre o que consideramos ser o mínimo. Por isso fico desconfortável com o uso que ele fez do meu livro”, disse Burke.

“Segundo Gusmão, eu poderia ter escrito ‘A Fabricação do Rei’ sem recorrer a Weber, Goffman, Bourdieu ou Habermas. Sim, eu poderia, mas não seria o mesmo livro.”

Ele pondera que recorreu aos teóricos “não por querer teorizar, mas porque eles sugeriram linhas de investigação que eu não teria encontrado por conta própria”.

A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, professora titular da USP, considera o livro “bem escrito e claramente polêmico”, mas ressalva que, “ao querer contrapor ‘teoria a real’, [o autor] acaba jogando o bebê com a água do banho”.

“Se há teorias que são por demais elípticas e interpretativas, não vejo porque criar uma nova hierarquia que opõe Paul Veyne a Bourdieu; Radcliffe-Brown e Malinovsky a Levi Strauss e Geertz.”

“O diálogo entre funcionalistas e estruturalistas é bem mais rico do que a mera contraposição”, acrescentou.

Defensora do legado de Florestan Fernandes e Bourdieu, a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora titular da USP, observa que “críticas demolidoras dessa ordem não levam a lugar nenhum e se ancoram numa proposta, para citar Machado [de Assis], de busca de nomeada [fama]”.

“Florestan é um sociólogo muito importante, Bourdieu é um renovador da sociologia. Podem e devem ser criticados, mas não dessa forma.”

Ressaltando que não se sentia à vontade para fazer um comentário “circunstanciado” sobre o livro sem tê-lo lido inteiro, o sociólogo Adalberto Cardoso, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, elogiou Gusmão.

“É trabalho muito sério de discussão de um problema fundador das ciências sociais. Ele tenta tratar de maneira acessível um tema muito cabeludo.”

Pondera que “talvez o livro opere uma simplificação excessiva de que essas formas [conhecimento teórico e realidade social] são excludentes, mas há tentativas de superar essa dicotomia”.(FABIO VICTOR)

O FETICHISMO DO CONCEITO
AUTOR Luís de Gusmão
EDITORA Topbooks
QUANTO R$ 46,90 (358 págs.)